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Doutor Carro: oficina online

Dono de um dos canais sobre mecânica mais acessados do YouTube, Tales Domingues, o Doutor Carro, comenta sobre o setor de reparação e revela curiosidades

Qual é o melhor óleo? Reparar ou trocar uma peça? Retificar ou não o motor? Dúvidas como essas são esclarecidas através de vídeos no YouTube, feitos pelo reparador automotivo Tales Domingues.

Batizado de Doutor Carro, o canal, criado em 2009, tem mais de 490 mil inscritos, que encontraram na internet um meio de obter dicas técnicas através de uma linguagem simples.

“Já fiz mais de mil vídeos com conteúdo para profissionais e leigos. Também quero que o consumidor os leve até os reparadores que estão fora da web, ou seja, mecânicos mais antigos que têm resistência ao conhecimento real de como as coisas funcionam”, diz o paulista.

Hoje, mais de 30 canais brasileiros no YouTube disputam audiência com o Doutor Carro. No quesito reparação automotiva, que é o principal foco de Tales, esses endereços virtuais somam cerca de 1,5 milhão de seguidores e mais de 350 milhões de visualizações – só os vídeos do Doutor Carro acumulam 123 milhões.

Números que mostram o interesse do brasileiro pelo assunto. “Os vídeos do modelo ‘faça você mesmo’ têm uma ótima audiência, mas meu projeto não foca apenas em uma grande quantidade de visualizações e, sim, em atingir os segmentos que acredito que precisam de informações para sua evolução”, afirma.

Leia a entrevista com Doutor Carro:

Canal da Peça: Quando surgiu seu interesse pelo mundo automotivo?

Doutor Carro: Sou filho de eletricista de automóveis e o meu mundo desde sempre foi o automotivo. Estou neste segmento desde a infância. Tenho 41 anos de idade e quase 30 como reparador automotivo.

Canal da Peça: Quando decidiu investir em vídeos no YouTube?

Doutor Carro: Tenho o canal desde 2009, mas no início de 2013 ganhou uma proporção incrível e passei a investir cada vez mais em vídeos. Eles são publicados duas vezes por semana. No entanto, nunca saí de dentro da oficina, pois é lá que as coisas acontecem.

Canal da Peça: Hoje, o canal é sua principal fonte de renda?

Doutor Carro: Os vídeos representam uma grande parte, mas atuo em outras áreas dentro do segmento automotivo, como palestras e consultorias.

Canal da Peça: Por que fazer vídeos com dicas? Acha que o mercado carece de informações?

Doutor Carro: Entregar o conhecimento por meio do audiovisual foi uma opção que descobri através de uma profunda pesquisa e minha estratégia atual é a mesma desde o início.

Canal da Peça: As mulheres também se interessam pelo assunto?

Doutor Carro: Sim, 20% do meu público é feminino e isso me alegra muito.

Canal da Peça: De uma forma geral, como você avalia o mercado automotivo hoje?

Doutor Carro: A alta carga tributária leva o povo a consumir produtos de valor mais baixo, que às vezes possuem qualidade inferior, o que pode comprometer a durabilidade. A retenção de informação técnica pelas montadoras também atrapalha muito a eficiência dos reparadores, que muitas vezes acabam trocando peças na tentativa de resolver problemas, já que eles não têm acesso aos testes corretos ou as características oficiais dos projetos.

Canal da Peça: Qual é o maior erro cometido pelo brasileiro?

Doutor Carro: Pagar por um produto ou serviço deficiente é um erro comum. Muitos dizem que não reclamam quando o produto defeituoso tem custo baixo. Mas eu prego que todos devem exigir a solução ou o dinheiro de volta, mesmo que seja R$ 1, pois só os consumidores podem mudar o mercado. Imagina uma oficina que tem que devolver o dinheiro para seus clientes. Ela terá que renovar sua estratégia ou estará fora do mercado e, isso, vai valorizar a empresa que realmente entrega a solução.

Canal da Peça: Acha que o brasileiro tem se interessado mais pelo setor?

Doutor Carro: A Automec 2017 demonstrou de forma prática que o YouTube veio para revolucionar o mercado, assim como as redes sociais, que têm muito impacto neste segmento.

Em ação: Tales Domingues durante gravação para o seu canal no YouTube


Canal da Peça:
Qual é a maior dúvida na hora da reparação de um veículo?

Doutor Carro: Acredito que o brasileiro está passando por uma transição, entre reparar e revisar. Creio que, em alguns anos, as revisões preventivas serão a resposta.

Canal da Peça: Quais são os “absurdos” mais vistos nesse mercado?

Doutor Carro: São vários pontos que precisam de atenção, mas um que me incomoda muito é o prestador não detalhar por escrito os serviços e seus valores de forma clara e, principalmente, não especificar os produtos aplicados com suas marcas e modelos. Cito isso, pois é comum as pessoas pagarem por peças originais e depois constatarem que a marca é paralela e, muitas vezes, de péssima qualidade.

Canal da Peça: Ao longo de sua carreira como reparador, qual é o caso mais memorável?

Doutor Carro: Atendi um Chevrolet Astra preto ano 1999 e resolvi um defeito que incomodava o proprietário há mais de seis meses. No entanto, fui visto pelo próprio cliente andando com o carro na Radial Leste, em São Paulo, com vários fios amarelos pendurados sobre o para-lama. Chegando na oficina, fui repreendido e quase perdi o emprego. Por sorte, tinha resolvido o problema e, logo depois, eu ganhei um prêmio em um concurso promovido por uma fábrica pela solução do defeito.

Canal da Peça: Quais são as dicas que você daria para um jovem mecânico ou para quem se interessa pela área de reparação?

Doutor Carro: Invista seu tempo em conhecimento. Leia muito, assista vários vídeos, participe de fóruns, faça cursos e ligue muito para os serviços de atendimento das marcas e absorva o máximo de conhecimento direto da fonte. Proceda sempre da forma mais correta e exija isso também.

Canal da Peça: Como você imagina o setor automotivo daqui a 10 anos?

Doutor Carro: A revolução já começou e as montadoras, fabricantes e prestadores de serviço vão ter que se reinventar. Os consumidores descobriram uma forma de obter o conhecimento e quem não se preparar vai ser colocado para fora do mercado, pois a complexidade tecnológica automotiva e o acesso à informação vão pressionar todos a evoluir. Outro ponto forte é o compartilhamento dos carros, pois os jovens vão preferir investir em outras coisas, como educação, em vez de carros próprios.

Canal da Peça: Qual é o futuro dos carros? Com tanta tecnologia, talvez robôs possam, um dia, substituir mecânicos?

Doutor Carro: Para mim a resposta é simples. As baterias são o único fator que retardam essa evolução, pois quando tivermos uma bateria que propicie a autonomia, os veículos elétricos serão o principal meio de transporte. Quem já viu um robô de montadora trabalhando, pode até imaginar ele correndo atrás de alguém e isso até me causa arrepios. Mas o diagnóstico ainda ficará na responsabilidade dos reparadores por mais algumas décadas.

Canal da Peça: Qual é o seu tipo de carro preferido?

Doutor Carro: O carro que cabe no meu bolso é o meu preferido. Prego que as pessoas não se deixem levar pelo status, pois um carro pode ser um benefício ou um atraso de vida. Eu gosto muito de olhar a desvalorização do modelo. Não compraria, por exemplo, um carro que sofre uma depreciação de 40% em três anos de uso, pois existe uma justificativa para essa desvalorização, seja pelo custo da manutenção ou dificuldade de peças.

O eleito do Doutor Carro: o modelo Ford T


Canal da Peça:
Se tivesse que escolher um carro como o melhor de todos os tempos, qual seria?

Doutor Carro: Ford T, com certeza, pois ele revolucionou o nosso segmento.

Canal da Peça: Como enxerga o setor de autopeças? Acredita que as vendas online tendem a ser o futuro do varejo?

Doutor Carro: Eu não vejo o mercado de peças online como substituto do comércio tradicional, mas será uma parte fundamental da estratégia de qualquer lojista, pois todos os comerciantes precisam estar onde os consumidores estão. Quem não estiver online vai perder uma grande oportunidade de fazer ótimos negócios. Eu mesmo compro grande parte dos produtos que consumo peça internet, incluindo autopeças.

+ Leia mais sobre o futuro do setor de autopeças

Canal da Peça: Quais são seus planos para o futuro?

Doutor Carro: Levar o conhecimento de qualidade é meu principal projeto. Quero plantar uma semente de mudança no coração dos prestadores de serviços e consumidores. Pretendo não desviar desse plano nunca, pois isso não mudará somente o meu segmento, mas todo o mercado.

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