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Na garagem do Tonella

Especialista em carros antigos e apaixonado por Fusca, Marcelo Tonella revela como a internet mudou o rumo de sua vida profissional e, ainda, dá dicas para quem sonha em ter um carro antigo

Ao chegar na casa do mecânico Marcelo Tonella, no município de Cotia, em São Paulo, parece que voltamos à década de 1970. Logo na entrada, uma caminhonete verde, muito bem conservada, nos dá as boas-vindas. Nada incomum se não fosse pelo fato de ser uma GM Chevrolet 1954.

Entre as árvores que compõem o amplo quintal, mais três carros chamam a atenção de quem gosta de modelos antigos: um Fusca amarelo 1972; outro azul 1973 e uma Kombi 1969.

“Tem mais um Fusca guardado ali atrás”, aponta Tonella em direção à garagem. “Esse eu tenho desde 1995, motor original 1500, com 100 mil km rodados”, passa a descrição.

Dos cinco carros, dois são de clientes – a caminhonete e o Fusca azul. “Esse Fusca será um desafio, pois não liga há 20 anos. Já a caminhonete, falta pouco. Fiz apenas uns ajustes”, diz ele, com propriedade de quem trabalha com graxa a vida toda.

Mas nem sempre foi assim. Tonella é técnico em eletrônica e fez carreira nessa área. Trabalhou durante 25 anos em grandes empresas de tecnologia. No entanto, a mecânica andava em paralelo. “Sempre gostei de mexer nos meus carros e fazer as reparações básicas”, diz.

Hoje, aos 47 anos, ele vive do que antes era apenas um hobby. Há quatro anos, largou tudo e passou a se dedicar à mecânica. Mas o motor principal dessa mudança foi a internet.

“Comercializo, pela web, um módulo de ignição que produzo em casa mesmo. Em determinado momento, as vendas se igualaram com o meu salário como técnico em eletrônica”, conta. “Financeiramente, era melhor me dedicar apenas à internet. Além disso, iria ficar mais com a família”.

O empreendedorismo virtual também ganhou uma mãozinha do YouTube. Apaixonado por carros antigos, Tonella criou um canal onde posta vídeos sobre mecânica clássica, especialmente do Fusca. Eles são voltados para o dono do carro, que pode aprender a fazer reparações sozinho. Ele já acumula quase 280 mil seguidores.

“Antigamente, o consumidor que comprava o meu produto era levado aos meus vídeos. Hoje, meus vídeos levam o usuário ao meu produto. A internet é uma ferramenta essencial para mim”, complementa.

O começo de tudo: o módulo e a internet

Foi em 2008, que a mecânica começou a fazer parte da vida de Tonella. E da família dele também. “Comprei um Fusca para levar minhas filhas para a escola. E, como ele sempre parava no meio do caminho, criei um módulo de ignição. Deu certo e comecei a vender esse produto pela internet”, relembra ele, pai de Bruna, 23, e Bianca, 19.

“Nessa época, muita gente estava ganhando dinheiro na internet. Percebi que o produto poderia se tornar um negócio rentável. Minhas filhas e minha esposa me ajudaram na produção e decidi tentar conquistar um lugar no mercado digital também”.

 Ganhe dinheiro também pela internet

Apesar de o item ser vendido com um pequeno manual de instrução, muitos compradores não liam e tinham dúvidas. Ele também disponibilizava um canal direto, uma espécie de SAC, mas achou mais fácil fazer um vídeo explicativo no YouTube.

“Depois desse vídeo, fiquei um tempão sem postar de novo”, diz. “Mas alguns comentários sugeriam que eu postasse mais vídeos, caso fosse mexer em algum carro. Foi aí que o canal foi crescendo”, comenta.

Novas oportunidades

O que antes era um complemento, se tornava, aos poucos, o sustento da família. “Em 2014, decidi me dedicar, exclusivamente, ao módulo, que até hoje é vendido, e aos vídeos no YouTube”, diz.

Apesar de ensinar o passo a passo das reparações, Tonella garante que os mecânicos não o enxergam como inimigo. “Hoje em dia, eles ganham dinheiro com carros novos, então não tiro o trabalho de ninguém. Muitos até assistem meus vídeos”, afirma. “Quem assiste mais são aquelas pessoas que pensam em ter um carro antigo, então querem se informar”.

+ Oficina na era digital

Os vídeos de Tonella são produzidos pela filha, Bianca, que, apesar de gostar e entender de mecânica, pretende se especializar na área de edição de vídeos. “Ela foi minha grande incentivadora”, diz, orgulhoso.

Tonella e a filha Bianca, dona da Kombi 1969. Foto: Adriano Stofaleti


Bianca, que sempre quis ter uma Kombi, ganhou a versão 1969 do pai, há alguns anos. “Restauramos e postamos todo o processo no Youtube, na série ‘Kombi da Bianca’. Foi bem legal”, comenta Bianca.

Setor de olho no YouTube

Embora não goste de ser chamado de “youtuber”, Tonella já colheu bons frutos por conta de seus vídeos na plataforma americana.

“A primeira coisa que me perguntavam era se eu ganhava alguma coisa com os vídeos. Já ganhei dinheiro, principalmente com a monetização, quando vídeos publicitários aparecem antes do meu”, diz.

No mundo, 1,5 bilhão de pessoas conectadas acessam o YouTube todo mês e, mais, passam mais de uma hora por dia no mobile assistindo a vídeos. No Brasil, o sucesso da plataforma de vídeos foi revelado no relatório YouTube Insights. Cerca de 95% da população online brasileira acessa o site, pelo menos, uma vez por mês.

“O meu canal foi uma chance de lavar a alma e passar o que eu sei, aquela informação que demorei tanto para encontrar, para quem está interessado. Muitos mecânicos e donos de carros utilizam o YouTube para se atualizarem”, diz.

E é verdade. Desde 2015, o volume de buscas do setor automotivo dobrou na plataforma de vídeos. Em média, 20 milhões de pesquisas por conteúdos de autopeças são feitas mensalmente no YouTube.

Mas, para Tonella, mais importante do que gerar conteúdo, é acreditar no que posta na internet. “Priorizo o que eu acredito nos meus vídeos. Para mim, é mais importante ter parcerias de longo prazo”.

Uma dessas parcerias é com a empresa brasileira MTE-Thomson. “Estamos com um projeto muito legal, o do Passat 1975, que já vai para a fase de pintura. Neste semestre, ele será totalmente restaurado”, afirma ele, que trabalha, pelo menos, uma vez na semana no automóvel.

Sete profissionais participam do processo de restauração do Passat, da MTE-Thomson


O Canal da Peça também é parceiro do projeto. “Recebemos muitas peças da plataforma, que tem nos ajudado bastante”, diz. “Mas não tente fazer isso em casa sozinho. É inviável alguém querer restaurar por conta própria”.

+ Leia mais sobre a MTE-Thomson

O varejo do amanhã

Entusiasta da internet, Tonella não dispensa a rede também para fazer compras. “Alguns carros antigos precisam apenas de regulagem, então muitas vezes não preciso comprar peças. Mas já comprei e só enxergo vantagens”, diz.

“Embora consiga todas as peças do Fusca em lojas físicas, o varejo online está crescendo muito. É muito mais fácil achar um ítem pelo código. Além de ser seguro e muito mais cômodo”, afirma Marcelo Tonella.
Para ele, o futuro do varejo de autopeças será na internet. “Em alguns anos, poucas lojas físicas vão sobreviver. Você chega, hoje, em uma e o vendedor nem faz questão de te atender caso você precise de um produto barato, como uma bobina de ignição, porque ele é comissionado. Ele não quer perder tempo com você. Na internet, é diferente. O vendedor faz questão de te atender e ainda te agradece”, comenta.

+ O futuro é online

Fora da rede

O reconhecimento de Tonella na rede tem aberto novas portas para ele: no caso, as da própria casa. “Quando consigo, recebo aqui alguns carros para regulagem básica e parte de ignição, que é o ponto fraco de todos os automóveis antigos. Mas faço todos os tipos de defeito. Até motor”, conta.

Porém, não é assim fácil ter seu carro reparado pelo Tonella. “Recebo muitas solicitações, mas, como faço em casa mesmo e não tenho uma equipe, fica inviável aceitar todas elas”, diz. “Mas já recebi até uma moto vinda do Paraná”.

Um dos projetos para este ano é ter um espaço maior, com uma equipe de mecânicos, para poder atender toda essa demanda. “Não tenho data definida, mas certamente vou conseguir me dedicar mais a esse tipo de trabalho”, afirma.

Fusca: uma paixão

O primeiro modelo de automóvel fabricado pela alemã Volkswagen não era o preferido de Tonella na adolescência. Pelo contrário: ele não via muita graça. “Meu pai sempre teve Opala e, quando eu era adolescente, montaram uma oficina exclusiva para Opala na minha rua. Imagina um adolescente vendo aqueles carros? Juntei dinheiro e comprei o meu 6 cilindros aos 16 anos, contra a vontade do meu pai”, comenta.

Sem idade para dirigir, ele só foi conseguir ter o prazer de andar com o Opala quando completou 18. Mas aí já não tinha mais vontade. “Meu pai faleceu pouco depois do meu aniversário e, como ele não era a favor, desanimei e preferi vender o carro”.

Um mecânico ofereceu outro carro na troca. E adivinha qual era? “Não gostava de Fusca, mas, na época, estava namorando minha atual esposa, que me convenceu a trocar. Como estava em início de namoro e o Fusca é bem econômico, aceitei”, relembra.

Marcelo Tonella e seu fusca amarelo 1972. Foto: Adriano Stofaleti


A partir de então, Tonella começou a enxergar o personagem principal do filme Se Meu Fusca Falasse (1968) de uma nova forma. “Me apaixonei pela mecânica simples, mas ao mesmo tempo sofisticada. É uma obra-prima da engenharia, pois tem praticamente metade das peças de um carro”, diz.

Antigos ou modernos? Eis a questão

Apesar de gostar de carros clássicos, os modernos também figuram em sua lista de desejos. “Escolheria um alemão ou japonês. Teria, facilmente, um Honda ou Toyota. Gosto também da Audi. Mas o design desses carros não me seduz”, afirma. “Prefiro ter uma Porsche 911 ano 1972”.

Outra questão que o motiva a optar pelos antigos é a economia. “Sempre tentei ter carros antigos, pois assim economizava em outros itens, como o IPVA, que, para mim, é dinheiro jogado no lixo. Além disso, domino a manutenção”, explica.

Mas, para Tonella, não existe carro bom ou ruim. “Gosto muito dos antigos, mas enxergo pela ótica da engenharia. Vejo mais do que um carro. Não podemos comparar: são projetos feitos para épocas diferentes”, diz.

“Da mesma forma que os modernos não vão durar os mesmos 64 anos dos antigos, eles, indiscutivelmente, são mais seguros que os mais velhos. Provavelmente, existirá um bug que fará o carro moderno parar de funcionar depois de um tempo. Pode ser que a eletrônica seja o calcanhar de Aquiles dos carros no futuro”.

Quer andar de carro velho?

Para Tonella, muitas pessoas que querem ter um carro clássico visam apenas o lucro. “A primeira coisa que precisam saber é que não vão ganhar dinheiro na venda desse carro. Isso é mito. Tem gente que compra um carro e acha que dali 15 dias vai ficar rica. Esqueça. Outra coisa é que vai precisar, sim, saber algo de mecânica, mesmo sem habilidade”, diz. “O mercado é muito restrito e, se você não souber o básico, vai gastar muito dinheiro em oficina mecânica especializada”, afirma.

De acordo com ele, a pessoa precisa aprender sobre regulagem básica, um pouco sobre carburador e ignição, e, sobretudo, conhecer o carro. “Ande muito com ele e perceba quando algo não vai bem. Às vezes, o problema está no desgaste de uma peça, que só precisa ser ajustada. Ficar na mão de aproveitador é triste”, aconselha. 

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