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Lugar de mulher é na oficina, sim!

Sabe aquele papo de que mulher não entende nada de carro? A paulista Thais Roland prova que esse é um dos grandes mitos que envolvem o sexo feminino. Ela entende – e gosta! – mais do assunto do que muitos marmanjos por aí…

Os 15 anos em que a paulista Thais Roland atuou na área de tecnologia serviram para comprovar o que ela vinha relutando há algum tempo: trabalhar em um local formal e vestir roupas sociais, definitivamente, não era sua praia.

Formada em Ciências da Computação, os roteadores e os switches de rede foram trocados por torquímetros e ferramentas automotivas. “Gosto de carros desde criança. Sou de uma época onde as pessoas mexiam nos automóveis em casa, nos finais de semana, e eu estava sempre por perto”, relembra ela, hoje aos 36 anos.

No entanto, a transição de carreira não foi assim de uma hora para outra. Em 2011, um ano antes de largar tudo, Thais fez um curso de mecânica no Senai para se reaproximar de sua antiga paixão. “Era só para ser um hobby, mas quando me vi nas aulas práticas me encantei. Na primeira semana de estágio, percebi que não queria mais sair desse universo”, diz.

“Não me arrependo nem de ter feito carreira em TI e menos ainda de ter abandonado. Mas trabalhar de camiseta e calça jeans, ainda mais mexendo em carros, é absurdamente mais divertido. Automóveis são melhores do que roteadores. Já oficinas são muito, mais muito melhores do que multinacionais”, garante, aos risos.

Ao contrário de muitos mecânicos que seguem os passos da família, Thais não tem nenhum parente na área, tampouco alguém tão aficionado por reparação como ela. “Não sei como surgiu o gosto pela mecânica, que é linda, simples e encantadora”.

Desde 2012 trabalhando, exclusivamente, com reparação, o começo não foi lá muito fácil com a família. “Meus pais ficaram preocupados. Meu pai ainda tem suas ressalvas, mas minha mãe acha o máximo. Hoje, eles estão vendo que tudo tem dado certo e estão mais tranquilos”.

Mulher com M maiúsculo

Thais é uma daquelas mulheres que gostam de “fuçar”: ela, que desde cedo mora sozinha, não se intimida na reparação elétrica ou hidráulica de casa. Mas mexer em carro só quando entrou no curso técnico.

“Quando iniciei as aulas práticas, comecei a me aventurar, sim. Já troquei até espelho de retrovisor de carro de amiga, debaixo de chuva”, relembra ela, que garante não ter sofrido preconceito na área por ser mulher.  

Com a mão na massa: Thais largou a área de TI para se dedicar à mecânica. Foto: arquivo pessoal


“Passei por situações mais constrangedoras na área de TI do que na automotiva. A internet é que é o problema. Vira e mexe recebo uma mensagem ofensiva nas redes sociais, mas quando vou olhar a pessoa já deletou perfil”, diz.

Mas, infelizmente, essa não é a realidade de muitas mulheres que atuam no setor automotivo. Uma pesquisa realizada com leitores do portal Automotive Business, que reuniu respostas de 220 profissionais do segmento, sendo metade do sexo feminino, revelou que 35,4% dos participantes declararam que já notaram tratamento inferior ou preconceituoso para mulheres que trabalham na indústria automotiva.

Outros 35% declararam que nunca presenciaram uma cena do gênero, mas que já ouviram falar de pessoas que enfrentaram esse tipo de situação. “Hoje, aprendi a ignorar e dar atenção só pra galera que realmente tá afim e acho que essa postura fez até diminuir esse tipo de coisa. O preconceito só é grande e faz diferença quando você dá importância pra ele”, opina.

Para ela, as mulheres que querem investir nessa profissão não precisam ter medo: fazer o que realmente gosta é, de fato, recompensador.  “Não podemos deixar o mundo dizer o que a gente pode ou não fazer. Vai ter uma dificuldade ou outra, mas quando começamos a fazer efetivamente, a galera que admira te joga muito mais pra cima. Vale a pena”, incentiva.

O blog que virou empresa

A era digital também trouxe novas profissões: blogueiro e youtuber. Mas, antes mesmo dessa onda invadir a internet, Thais já mantinha um blog, o Coisa de Meninos Nada, que surgiu em 2008. Na página, que existe até hoje, os temas eram diversificados e, é claro, os automóveis também tinham espaço garantido. 

Em 2011, o blog passou a focar apenas em reparação automotiva. “No ano passado, ele virou empresa e agora presto consultoria e ministro workshops sob o nome do blog”, diz Thais, que também tem um canal no YouTube

Thais e seu Maverick. Foto: arquivo pessoal


“Em março, vou começar uma turma de motores ciclo Otto, na Escola Técnica Automotiva, em São Paulo. Para ministrar as aulas, vou usar o motor do meu carro. Vai ser o máximo”, afirma.

+ Veja mais: A peça que faltava 

O motor V8 original, que está parado há 20 anos, irá ser usado na restauração de um velho conhecido de seus seguidores: um Maverick 1975, batizado de Damien – ou, apenas, Damião para os íntimos. “Vou usá-lo no curso e, quando o carro ficar pronto, os alunos vão acompanhar a usinagem, a instalação e regulagem dele”, adianta.

O xodó Damien

Thais sempre quis ter um Maverick. Quando criança, ganhou uma jamanta de brinquedo que vinha com quatro carrinhos. Escolheu, claro, o Maverick que a acompanhou a vida toda.

“No meu primeiro estágio, avistei o Damien em uma outra oficina, à venda. Negociei ele durante meses”. A história de amor à primeira vista rendeu até uma tatuagem. “Quando soube que ele seria meu, fiz uma tatuagem em homenagem a ele”, diz.

Thais no dia em que comprou o sonhado Maverick, batizado de Damien. Foto: arquivo pessoal


Assim que passou o carro para seu nome, Thais não perdeu tempo e anunciou, no blog, que iria gravar toda a restauração. Feita por ela, é claro. “O carro é todo podre. Não tem nenhum lugar dele que não vai precisar de reparo, então a restauração é lenta e ainda vai longe. Sempre que posto alguma coisa sobre o carro, a interação bate recorde”.

O Damien, inclusive, foi eternizado em sua pele. Foto: Irineu Desgualdo Jr.


Durante dois anos, a mecânica atuou somente com restauração de carros antigos. Mas voltou a trabalhar com os modernos, pois recebe muitas dúvidas sobre como lidar com os novos. “Senti a carência dos donos dos carros em querer saber o que acontece, em como conversar com os mecânicos. Mas não deixei de frequentar os encontros de carros antigos e, é claro, ainda sigo na empreitada de restaurar meu Maverick”, afirma.  

Conteúdo para todos

Muitas mulheres têm se interessado mais por reparação e até por cursos sobre o tema porque sentem que são enganadas nas oficinas. Mas não é somente elas que passam por isso, não.

“Elas têm a humildade de admitir que não sabem e me procuram pra aprender, mas tem muito homem sendo enrolado por aí também. Já vi isso acontecer demais. Trabalhei em um lugar por duas semanas e vi o dono da oficina (e alguns de seus funcionários) enrolarem tanta gente que não dormia mais até sair de lá”, diz.

Thais em ação: as mulheres têm se interessado mais pelo tema. Foto: arquivo pessoal


Os conteúdos postados por ela, tanto no blog como no Youtube, são direcionados aos donos dos carros e aos mecânicos. “Eu oriento as pessoas em relação ao que acontece nos carros durante as revisões, por exemplo. Tem mecânico que não gosta de ficar explicando para o cliente o que vai fazer ou deixar de fazer, e eu faço essa ponte na comunicação”, diz.

+ Uma ferramenta a mais 

“Só sai prejudicado com o meu trabalho o profissional que é pilantra. Esse, sim, eu quero aniquilar do planeta. Mas se o cara trabalha direitinho só tem a ganhar com meu trabalho”.

A transformação do setor

Para a paulista, a modernização do setor, que inclui catálogos digitais e vendas online, tem auxiliado muito seu trabalho.

“Além de evitar que a gente acumule papéis, os meios digitais permitem atualizações com muito mais eficiência. Sabemos que quando pegamos um catálogo digital estamos acessando a informação mais recente possível”, opina Thais Roland.
“Para compra de peças eu acredito mais na internet do que nos meios tradicionais. Um sistema bem feito, onde você coloca o código da peça em vez de pedir a peça pela descrição do carro, pode eliminar um monte de problemas de entrega errada e atrasos no trabalho”.

 Traga sua loja para a internet!

A internet tem sido a principal ferramenta de pesquisa dos brasileiros. Segundo o estudo ‘The Shopper Story 2017’, realizado pela Criteo, 79% dos consumidores brasileiros são omnishoppers, isto é, usam diversos dispositivos, plataformas e canais para busca, escolha e aquisição de produtos.

O Canal da Peça chamou a atenção de Thais, que se prepara para a primeira compra. “Achei muito interessante a proposta e, como consumidora virtual, acredito que as boas experiências vêm da seriedade do site. A internet não perdoa quem não trabalha bem”.

+ Leia também: Uma nova possibilidade para os mecânicos 

Futuro na rede e sem oficina própria

Thais planeja continuar na área de consultoria e treinamentos, mas sem abandonar seus canais na internet. “Gosto e faço bem esse lance de orientar e ajudar as pessoas, me sinto realizada e sei que estou fazendo a diferença em um setor carente desse tipo de atitude”, diz.  

“Não abandono a oficina nem a internet, aliás, a ideia é dar cada vez mais força e credibilidade ao blog e ao canal no Youtube, já que são meios onde alcanço mais gente”, complementa.

Já sobre ter um oficina própria, Thais é categórica: “Não. Ter uma oficina significa fincar o pé em um lugar e esperar as pessoas virem até mim. Hoje, prestando consultoria e trabalhando com oficinas parceiras, eu posso ir até as pessoas e acho que assim faço muito mais por elas”, finaliza.

Dicas para você cuidar melhor do seu carro:

Cuidado com o óleo: para não fundir o motor, vale respeitar os períodos de troca especificados no manual do seu veículo.

Pneu em dia: a falta de cuidado com os pneus, incluindo calibragem e alinhamento, pode fazer com que eles estourem ou, ainda, pode causar desconforto e dificuldade para manter o carro na direção correta. Toda semana é preciso calibrar os pneus; enquanto o alinhamento, de acordo com o manual. Preste atenção também no desgaste dos pneus e no prazo de validade. 

• De olho nas luzes do painel: a falta de atenção nas luzes do painel pode gerar prejuízo. Quando a pessoa não se atenta às luzes e, posteriormente, alguma coisa quebra, o reparo poderá ficar mais caro do que uma manutenção preventiva. Portanto, mesmo se não sentir nada fora do normal, preste atenção no painel.

• Escute o seu carro: muitas vezes, o automóvel dá sinais de que tem alguma coisa errada, mas a pessoa não percebe por conta do sistema de entretenimento. Atente-se aos barulhos, pois, mais uma vez, o reparo pode ser mais caro do que a manutenção.  

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