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O futuro é digital

A tecnologia está inserida de diferentes formas na rotina de quem vive da produção rural. Um simples smartphone pode ajudar a elevar a produtividade e a conquistar novos mercados. Com mais acesso às informações, os negócios no campo vão de vento em popa

Já imaginou um aplicativo que mede, exatamente, a temperatura do ambiente? Ele já existe e, para produtores rurais, pode fazer toda a diferença. E ele não está só. Há plataformas que ajudam a prever o clima; outras enviam imagens por satélite da plantação. Tem até ferramentas que auxiliam a gerenciar uma fazenda.

A boa notícia é que todas essas soluções podem ser acessadas através de um aparelho bem comum atualmente: o smartphone. É através dele também que o produtor tem acesso às informações técnicas, vídeos explicativos e, ainda, pode vender e divulgar o que produz.

Com acesso a um universo de oportunidades, produtores rurais têm explorado todas as possibilidades da internet. O Canal da Peça foi atrás dos entusiastas da tecnologia no campo. Gilberto Custódio, do Sítio Kitaguchi, em Mogi das Cruzes (SP), é um deles.

“A rede teve um peso muito grande no nosso aprendizado. Falta ciência na área de fungicultura no Brasil, então grupos de Facebook e WhatsApp nos ajudam a tirar dúvidas com outros produtores”, revela. “Além disso, a internet é essencial para o comércio e divulgação da nossa produção. É através dela que aumentamos nossa carteira de clientes”.

+ Leia mais: “Investir em tecnologia, é investir em produtividade”

Custódio não cresceu no cenário rural. Tampouco vem de família de agricultores. Após 28 anos atuando em laboratórios de análises clínicas, ele deixou a capital paulista em busca de mais tranquilidade no campo.

A escolha da cidade não foi por acaso. “Minha esposa (Suely Kitaguchi) é herdeira do sítio, que na década de 1940 ficou conhecido pela produção de hortaliças. Em 2006, após muitos estudos, decidimos cultivar cogumelos e, quatro anos depois, a produção ficou profissional”, relembra.

A tecnologia na produção também foi fundamental para o início do cultivo. “Já utilizamos equipamentos comuns em laboratórios, entre eles, para controle de oxigênio e temperatura. Eles foram essenciais para garantir a performance e a produtividade que temos até hoje”, afirma.

Divulgação na web

Atualmente, além do cultivo de cogumelos, Gilberto também comercializa sementes. A internet, inclusive, serve de vitrine para seus produtos – e também como um canal a mais de vendas. “Por ser perecível, os cogumelos não podem ser enviado pelos Correios, apenas por transportadoras. Por isso, nossa venda principal na rede é de sementes, onde atuamos em marketplaces”, revela.

Outro serviço disponibilizado pelo Sítio Kitaguchi tem feito sucesso na rede: o Turismo Rural, que desde 2016 atraí escolas de diferentes regiões do estado. As crianças têm a chance de conhecer o trabalho no campo e brincar rodeadas pela natureza.

Adultos também têm se interessado pelo dia no local. Para esse último grupo, o destaque fica por conta dos cursos sobre o cultivo de cogumelos. “A internet tem aberto novas portas. Sem ela, o alcance do nosso negócio seria muito menor”.

Clientes de todos os portes

A maior parte da produção do Sítio Kitaguchi é destinada às Ceasas de São Paulo e de Mogi das Cruzes. No entanto, clientes menores, como proprietários de pequenos restaurantes na região e na capital, e até consumidores finais, estão na lista de entregas do fungicultor. Quando o cliente está no roteiro, Custódio faz a entrega pessoalmente.

“A tecnologia, nesse caso, se tornaria indispensável caso tivesse uma plataforma de entrega, que reunisse todos os pequenos produtores rurais da região. Uma logística bem estruturada faria economizarmos tempo e dinheiro”. Hoje, é através do WhatsApp que os envios são agendados.

“O WhatsApp tem tido uma representatividade grande na nossa rotina, pois combinamos entregas com clientes, mandamos orçamentos e fotos. Facilita bastante o nosso dia a dia”, afirma Gilberto Custódio, do Sítio Kitaguchi.

Para Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), a digitalização no campo já caminha a passos largos. “O mundo já está totalmente digital. Tudo o que a gente faz está, de alguma forma, relacionado a este universo. As operações bancárias exemplificam isso: são raríssimas as vezes que hoje vamos ao banco de forma presencial, pois temos uma cadeia de serviços digitais. A mesma coisa vai acontecer no agro. Por isso, muitos serviços já estão se preparando para serem o mais digital possível”, afirma.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE, em 2015 cerca de 52,8% da população rural possuía celular. Um relatório do Banco Mundial, que reuniu estudos sobre comunicação e seu impacto na economia agrícola, estima que produtores que usam tecnologias de comunicação chegam a faturar 35% mais. A explicação está no acesso a melhores preços, facilidade nas negociações com revendedores e clientes e, também, nas mudanças comportamentais dos consumidores.

Gilberto Custódio, do Sítio Kitaguchi. Foto: Adriano Stofaleti


“Acho que não vai demorar muito para que operações comuns do nosso dia a dia sejam feitas digitalmente. A tecnologia irá simplificar ainda mais a nossa rotina”, acrescenta Custódio.

Flores na rede

Próximo ao Sítio Kitaguchi, o Orquidário Oriental já vive a realidade virtual desde os anos 2000, quando passou a comercializar pela rede. Desde 1988 cultivando orquídeas, a família Saab vislumbrou um mercado promissor para a planta na internet.

“Com o boom do real, a entrada de orquídeas importadas no País ficou mais forte. Muitos produtores começaram a importar flores de países como Holanda, Tailândia e Japão, e hoje existe essa diversidade de orquídeas. Com isso, cresceu o interesse dos brasileiros por esta flor”, diz a produtora Mirene Kazue Saab. “Enxergamos na internet a chance de expandir nossos negócios”.

+ Comércio eletrônico a todo vapor

Para Mirene, que foi uma das pioneiras na comercialização da planta na rede, o comércio eletrônico de orquídeas ganhou a atenção dos brasileiros no final da década de 1990 – consequentemente, a popularização da planta, que até então era pouco prestigiada por aqui.

“Houve uma mudança no comportamento do brasileiro, que passou a consumir mais pela internet e também a se interessar mais por flores. Nesse cenário, as orquídeas foram ganhando espaço. A popularização foi tanta que até supermercados passaram a comercializá-las”.

Mirene Kazue Saab, do Orquidário Oriental. Foto: Adriano Stofaleti


Como se trata de plantas vivas e, portanto parte protegida do meio ambiente, as entregas são feitas, exclusivamente, através de transportadoras. “A questão do transporte é, de fato, um entrave para quem quer comercializar plantas vivas na internet. Espero que, no futuro, o governo crie ferramentas e incentivos para produtores que querem vender online”.

Ainda assim, a produtora destaca as vantagens da internet. “A rede serviu para que nós divulgássemos o nosso trabalho. Hoje, através dela, recebemos visitantes de várias cidades brasileiras o ano todo e tivemos que abrir um restaurante, aqui dentro, para recepcioná-los, gerando mais uma fonte de renda para nós”, afirma.

Tecnologia sempre

De acordo com Mirene, maquinários tecnológicos não fazem parte de sua rotina de trabalho, que segue a linha mais natural. No entanto, a tecnologia tem sido sua aliada para agendamento de visitas, enquanto as redes sociais Facebook e Instagram fazem a divulgação do negócio.

“Além disso, a tecnologia está empregada na nossa comunicação. O WhatsApp, por exemplo, é o nosso principal canal com o cliente. Através do celular, em poucos cliques, mandamos orçamentos, tiramos pedidos, enviamos fotos dos arranjos. É uma forma muito mais rápida e prática”, diz.

A atuação online tem surtido efeito. “Nosso e-commerce representa 20% do nosso faturamento. Focaremos, em breve, em vendas online para o mercado atacadista”, adianta.

+ Veja também: WhatsApp no varejo

Para a produtora rural, é impossível não estar online. “Sem a tecnologia, o Orquidário Oriental não seria conhecido e não teríamos chegado nesse porte. Com a ajuda das soluções digitais e com um simples smartphone, conseguimos identificar para que lado a floricultura está caminhando”, afirma. O agro caminha rumo a uma grande transformação nos próximos anos.

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